O que é a Igreja Kalleyana?

Introdução
A Igreja Puritana Reformada, no primeiro Classis ou Presbitério organizado no século XXI, depois das amargas perseguições e lutas do século XX, foi chamada Igreja Kalleyana. Este blog contém artigos escritos principalmente durante esta organização do primeiro Classis, cujos esforços foram de aproximadamente 1990 até o firme estabelecimento da Igreja em 2008. Mas, antes de apresentarmos os aspectos históricos e organizacionais da Igreja Kalleyana, é importante teorizarmos uma distinção entre os nomes congregações e congregacionalismo com o qual somos identificados (referindo-nos com estes termos a um movimento teológico e ao Princípio do Establishment) e as formas de governo congregacionais. O Congregacionalismo e o nome congregações que usamos comumente, como Congregações Kalleyanas ou Congregacional Kalleyano refere-se uma cosmovisão Bíblica a respeito da Igreja de Cristo, e tem suas raízes na teologia do movimento Cristão chamado Puritanismo; portanto, está diretamente ligado a Reforma Protestante, podendo ser considerado o progresso natural da Reforma. A forma de governo congregacional, entretanto, é apenas uma maneira pela qual um grupo (religioso ou não) pode ser administrado. A forma de governo congregacional é aquela onde as decisões são tomadas em Assembléia, pela maioria mais um dos membros votantes. O que temos no Brasil hoje, nas denominações que usam o nome Igreja Congregacional não é o Congregacionalismo, mas apenas uma forma de governo congregacional, usualmente na mais extrema forma da democracia e voluntarismo. Seria uma verdadeira aberração associar estas igrejas ao Congregacionalismo e, a seguir, exporemos o porque desta afirmação tão drástica.

O Puritanismo Não-Conformista no Brasil
A origem do Puritanismo no Brasil remete a primeira obra de Evangelização permanente do país: o trabalho missionário do Rev. Robert Reid Kalley. A figura do Rev. Kalley é comumente mal compreendida quanto a questão Congregacionalista. Isto se dá porque o Reverendo foi tanto o fundador das primeiras igrejas de governo congregacional no Brasil, quanto foi o primeiro tradutor e divulgador dos escritos de autores Congregacionalistas, Puritanos e Não-Conformistas em língua portuguesa. Além disso, o Reverendo Kalley, apesar de ser membro da Igreja da Escócia, que é uma Igreja Presbiteriana, ao fundar igrejas no Brasil não o fez sob um estrito regime presbiteriano típico, por exemplo das igrejas dos EUA e dos outros dois continentes onde o Reverendo atuou como fundador de igrejas. Mas, quanto a isto, devemos levar em conta que o regime presbiteriano escocês era tal que o Puritano considerado adepto da forma de governo congregacional chamado John Owen (considerado um dos maiores teólogos da História, ao lado de João Calvino e Jonathan Edwards) em conversa com outro grande Puritano, o presbiteriano chamado Richard Baxter (considerado um dos maiores pastores da História), disse a Baxter que não teria dificuldade alguma para conciliar seu congregacionalismo com o presbiterianismo Escocês se pudesse trabalhar para a união dos dois grupos. Igualmente Baxter, repito, dito Presbiteriano, reconheceu nos escritos de Owen a “mesma forma de governo e disciplina” que ele mesmo praticava, passando logo a propor a Owen uma união. Da mesma forma, Samuel Rutherford, Puritano escocês tido por fundador do Presbiterianismo jure divino da Escócia (o qual honramos e adotamos conforme expresso em nossos Símbolos de Fé), republicou grande parte do trabalho de Owen sobre Governo e Natureza da Igreja, aprovando estes escritos e interagindo construtivamente com grande parte destes. Portanto, a forma como inicialmente organizou-se a Igreja Evangélica no Brasil não representa um rompimento com o Presbiterianismo, mas uma expressão do desejo de união entre os Não-Conformistas; ou seja, entre diversos Puritanos Reformados do mundo, entre todos que almejam uma vida e uma igreja Santas, separadas da conformidade mundana dos hipócritas e das religiões criadas pelos homens. Temos em Baxter, Owen, Flavel, Rutherford e Bunyan, dentre outros Puritanos, grandes expressões desta “universalidade” e desejo de união visível na Igreja de Cristo, doutrina e afeição esta que tomou expressão recente tanto na obra de E.J. Poole Connor (que, abençoado pelo Senhor com longevidade, foi tanto contemporâneo de Charles Spurgeon e Robert Kalley, quanto nosso) e de D.Martyn Lloyd-Jones. Neste contexto e sob esta herança teológica Reformada e Puritana, a Igreja Evangélica foi fundada por Robert Reid Kalley como uma legítima comunidade Não-Conformista, orientada a exercitar a liberdade de consciência sob o exame e regra da Escritura (conforme diz a Confissão de Fé de Westminster). Portanto, a Igreja Evangélica, na obra de Owen, Bunyan, Rutherford e Baxter (para citar dois nomes que claramente marcaram a teologia de Kalley), e na formação que o Reverendo recebera na Igreja da Escócia, estava paralelamente sob forte influência do Congregacionalismo Puritano e do Presbiterianismo Escocês representado por estes homens. Não sem porque Silvana Azara Kalley, filha adotiva do Rev. Kalley, declarava abertamente que a Igreja por ele fundada no Brasil transcendera o denominacionalismo do presbiterianismo modernista (surgido no século XIX), assim como também não se adequava aos chamados Batistas ou a qualquer denominação então vigente: era simplesmente a fé dos antigos Puritanos revivida.
O afastamento da Igreja Evangélica de suas raízes kalleyanas, e, portanto do Não-Conformismo Puritano, se deu por razões históricas alheias a teologia de Robert Kalley – não foi o Doutor que impediu estas congregações de se tornarem firmes bastiões do Puritanismo Reformado no Brasil, mas sim seus membros, pouco a pouco influenciados por outras correntes teológicas (como o Darbismo), que se afastaram da Reforma – até mesmo contrariando recomendações que o amado Reverendo fez tanto por cartas quanto em seus sermões. No entanto, dentro da herança teológica dos primeiros evangélicos do Brasil, nas igrejas fundadas por Robert Kalley, a teologia Não-Conformista e Puritana foi passada, de geração em geração, por alguns poucos homens, enquanto a grande maioria era cada vez mais influenciada pelas novidades de cada época.

O que é exatamente esta visão de mundo dos Puritanos, chamados Não-Conformistas, que nomeia e identifica a Igreja Kalleyana?
Em primeiro lugar, o Puritanismo não-conformista como conjunto de doutrinas, derivado e subordinado às Escrituras, crê, quanto a eclesiologia, na relativa autonomia de cada congregação local. Diferente daqueles que são adeptos das formas de governo congregacionais vigente, que crêem na completa autonomia, ou seja, na independência das congregações. Para o Puritano não-conformista a igreja é um pacto mútuo e voluntário firmado entre homens regenerados pelo poder do Santo Espírito na proclamação do Evangelho, no qual comprometem-se a formar uma santa comunidade. Repito que, para o não-Conformista Puritano, cada igreja ou congregação particular é uma instância da Igreja de Cristo, não importa quão poucos indivíduos ali se reúnam, ou quão precário ou comum que seja o local onde celebram o Culto; eles são parte real do Corpo de Cristo, o Templo do Espírito Santo e a habitação de Deus [1 Coríntios 3:16, Efésios 2:21, 1 Pedro 2:5].
Assim, para o não-Conformista Puritano (especialmente referindo-nos aqui ao que aprendemos pela Escritura Sagrada, auxiliados por John Owen e Richard Baxter, e, posteriormente, por Samuel Rutherford e, por fim, do herdeiro destes santos homens, Robert Kalley), cada igreja ou congregação particular, ainda que diminuta ou desconhecida ao mundo, é desta forma tão preciosa ante o Senhor, que não pode existir proeminência entre estas, nem qualquer privilégio de uma congregação sobre a outra. Menos ainda, segundo o que nos ensina a Escritura poderia ser lícito que um homem domine sobre os outros de uma congregação, ou sobre várias congregações [1 Pedro 5:1-4], seja como bispo universal ou bispo diocesano. Cremos, contudo que nosso Senhor, sendo um Deus de ordem [1 Coríntios 14:33], não deixou seu povo sem auxílio ou direção, mas determinou servos e distribui para eles dons de governo e socorro [Romanos 12:6-8, Efésios 4:8-11], escolhendo, dentre estes, alguns para governar sobre Seu povo em amor [1 Pedro 4:10-11; Eclesiastes 9:16]. Estes homens, que administram ao povo tesouros espirituais em Cristo e nEle os governa, são chamados de Presbíteros ou de Bispos [Tito 1:5-7]. A autoridade destes homens não está neles mesmos, nem na força ou na coação que possam exercer, nem na instituição que presidem, nem na sua ordenação per si – a autoridade deles está na Palavra de Cristo, que deve dirigir suas vidas e ser abundante em seus lábios, confirmada, segundo o Espírito, pelos membros da congregação e recebida, com alegria, pelos Santos. Embora seja possível que uma congregação seja formada sem oficiais, é um útil e necessário mandamento, segundo a Palavra de Cristo, que cada congregação possua ao menos um Presbítero Professor (ou seja, com abundante conhecimento da Palavra e grande capacidade de liderança, preferivelmente com vasto estudo em nosso Seminário Teológico, donde seu assento ministerial repousa) ou Pastor (homem dotado de dons de sabedoria para aplicar a Palavra com sabedoria e cuidar do rebanho do Senhor) e um número suficiente de Presbíteros Governantes e Diáconos. Cremos e defendemos ainda, segundo aprendemos da Sagrada Escritura e nos foi legado, que para que o governo seja exercido, em cada congregação, com equidade e para que a união espiritual que desfrutamos em Cristo seja visível, é uma determinação de nosso Senhor (portanto é lícito e proveitoso) a reunião destes Presbíteros em Concílios ou Assembléias (tanto na congregação local, formando um Concílio local e permanente, quanto reunindo Presbíteros de várias congregações, em reuniões regulares) nos quais uns edificarão aos outros segundo a sabedoria que Deus lhes tem concedido, servir-se-ão mutuamente segundo seus dons, e onde fiscalizarão uns aos outros (evitando que Satanás levante pretensos bispos universais no meio do povo de Deus, como já tem feito em todos os séculos através do mistério da iniquidade chamado trono Papal). Com a autoridade da Palavra que carregam consigo, os Presbíteros reunidos em Concílio local executam deliberações doutrinárias e pastorais sobre o rebanho e, quando necessário (como, por exemplo, em caso de exclusão de um membro), apresentam estas deliberações para apreciação e votação de toda a congregação. Quando reunidos em Concílios regionais, os Presbíteros retornam para suas congregações levando as solenes decisões doutrinárias e pastorais tomadas em comum conselho, para que sejam recebidas pelo restante do rebanho do Senhor, não por força ou coerção, mas por reconhecimento da Palavra da Verdade e da ordem através da qual Cristo, o Cabeça, governa a Igreja. Cabe ainda a cada congregação local reunir-se regularmente para deliberar sobre os assuntos comuns, patrimoniais ou administrativos e para se submeter aos oficiais que presidirão sobre eles. Cremos portanto, que segundo as promessas de Deus, nos Concílios (tanto locais quanto regionais) e nas Assembléias, decisões mais sábias são tomadas do que as que poderiam ser feitas por um Presbítero isolado dos seus Santos irmãos em Cristo [Provérbios 15:22]. Mais detalhes sobre a Forma de Governo Reformada e Puritana, histórica, que  difere substancialmente dos independentes, podem ser encontrados no Livro de Ordem, Governo e Disciplina Comum publicado por nós (o qual é baseado nos documentos históricos da Igreja, tanto na Forma de Governo chamada de Westminster, quanto nas Plataformas elaboradas nos EUA, nos Livros de Disciplina da Igreja da Escócia e nos Artigos Orgânicos fundacionais brasileiros), onde, dentre tantas outras preciosas instruções, encontramos uma equilibrada visão da Igreja Neotestamentária, expressa nas seguintes palavras: “O governo da Igreja é um governo misto – quanto a nosso Senhor o Cristo, que é cabeça e rei da igreja, e ao Soberano Poder residente nEle, e exercido por Ele, a Igreja é uma monarquia; quanto ao corpo ou fraternidade da igreja, e ao poder que Cristo comissionou a eles, ela se assemelha a uma democracia; quanto ao presbitério e ao poder comunicado a eles, é uma aristocracia.”
A origem histórica deste modo de governo sem dúvida se perde no tempo desde aquilo que alguns teólogos chamaram República do Velho Testamento, e pode ser acompanhado através do desenvolvimento da religião judaica na foma das sinagogas, cujo governo era (e ainda é em grande parte do mundo) semelhante ao descrito acima. Quanto a este modo de governo sobre a Igreja NeoTestamentária, cremos que ele foi praticado desde os Apóstolos. São João Crisóstomo, o grande teólogo do século IV, assim como São Jerônimo no mesmo século, concordavam em dizer que: “antes de o Diabo fazer crescer o facciosidade em meio a religião … as igrejas eram governadas através de concílios de presbíteros. Somente depois desta época ocorreu de ser decretado por todo o mundo que algum escolhido de entre os presbíteros dominasse sobre os outros”.

A Origem das Congregações da Igreja Kalleyana
Exatamente como o terrível Império Romano, a Igreja de Roma obscureceu a Luz da Palavra e cobriu com terra imunda as antigas fontes da água da vida tanto quanto pôde. Este maligno exercício lançou os Cristãos em uma terrível peregrinação pelos desertos da perseguição e martírio por séculos. E, embora o Evangelho de Cristo jamais tenha desaparecido da terra, porque isto é impossível, a verdadeira Igreja que traz consigo esta Palavra permaneceu por mais de mil anos fugindo da Apóstata Igreja de Roma. A aurora da Palavra, segundo a Graça de Deus, trazendo de volta ao mundo a Luz do Evangelho e findando este período de tentação da verdadeira Igreja no século XVI, após duras batalhas travadas por pregadores e pré-reformadores, batalhas que se intensificaram a partir do século XIII. É dentre os pré-reformadores que encontramos, na Inglaterra, John Wycliff, um clérigo que protestou bravamente contra a Igreja de Roma apesar de correr enorme risco ao fazê-lo. O grande John Wycliff, ao exortar o povo a conhecer as Escrituras e obedecê-las como única regra de Fé e Prática, lançou as sementes que floresceriam séculos mais tarde, quando, ao fundar a Igreja Anglicana (uma igreja nominalmente separada da Igreja de Roma, porém que procurava conservar muitos dos seus costumes e doutrinas), Henrique VIII desafiou os ânimos daqueles que desejavam uma verdadeira Igreja Cristã na Inglaterra. Muitos destes ânimos haviam sido excitados pelo trabalho de John Wycliff (que persistira aos séculos), outros com a chegada da Bíblia traduzida para o idioma Inglês pelo mártir William Tyndale (outro legítimo antepassado dos Puritanos), e ainda outros com as notícias da Reforma que prosseguia em todo o mundo. Neste cenário, leigos, ministros e teólogos cheios de zelo e piedade, conhecedores da Escritura e dotados do mais entranhado desejo de servir ao Senhor com todo coração, todas as forças e todo o entendimento, se ergueram e começaram a pregar a Reforma e Purificação da Igreja Anglicana para que ela se tornasse uma igreja fiel à pureza e simplicidade do Evangelho de nosso Senhor. Formava-se ali um movimento pietista e intelectual de alcance mundial cujos participantes foram chamados de “Puritanos”. E, foi devido ao grande desejo que os Puritanos possuíam de que a Igreja se conformasse a Palavra de Deus em todas as coisas (inclusive na forma de Governo) que  o movimento Não-Conformista e, posteriormente, a específica forma que descrevemos aqui, tanto quanto a doutrina, como quanto a piedade, nasceu.
Portanto, apesar de nossa ênfase inicial, por uma questão de polêmica histórica, ter sido sobre a Forma de Governo da Igreja, não é somente uma forma de governo específica que nos faz concordar com os Puritanos, mas temos, pela Graça de Deus, sido chamados a sermos uma vera continuação do Puritanismo de onde surgimos – uma legítima revivificação da Igreja Primitiva e do ensino Apostólico, uma legítima revivificação da Fé Reformada esposada outrora por Wycliff, Tyndale, João Calvino e John Knox. Reafirmamos que o Puritanismo é um conjunto de Doutrinas onde o zelo pela Glória de Deus em Sua Igreja e em Seu Povo destaca-se ímpar; onde se têm a Escritura como única e suficiente, autoritativa e perfeita Palavra de Deus para Seu Povo; e se tem em Cristo toda a Salvação e todos os tesouros espirituais que a Graça de Deus desejou comprar para entregar aos pecadores arrependidos que nada merecem por si, exceto os horrores eternos do Inferno. Destarte, o Puritanismo é a bíblica e indestrutível doutrina dos Apóstolos, recebida de Cristo, ensinada na Escritura Sagrada e reencenada na Reforma Protestante. Por isso afirmamos sem temor que uma igreja verdadeiramente fiel a Escritura será, de uma forma ou outra, conduzida a tornar-se Puritana e Reformada em suas doutrinas e práticas – levada a aderir a Fé Cristã Histórica, confessada pela Igreja de Cristo em todos os séculos. E foi nesta peregrinação e jornada que temos sido conduzidos por nosso Mestre e Senhor para sermos uma Igreja Puritana e Reformada.

A Necessidade de Reforma nas Igrejas do Brasil
Por esta causa afirmamos com veemência que não conhecemos nenhuma outra denominação no Brasil que seja verdadeira e plenamente Puritana e Reformada. Antes, aqueles grupos brasileiros que se identificam pelo nome “Congregacional”, mal conhecem a vida e, de forma alguma mantêm a corrente teológica de nosso fundador, o Rev. Dr. Robert Reid Kalley – que foi um típico Puritano, embora extemporâneo, como também foram herdeiros dos Puritanos nos séculos XVIII e XIX: o Rev. Charles Spurgeon (o chamado Príncipe dos Pregadores, com o qual, inclusive, Kalley manteve correspondência e auxiliou grandemente seus trabalhos no Brasil), o Rev. George Whitefield (pai do Metodismo Calvinista), o Rev. Jonathan Edwards (o maior filósofo e teólogo da história dos EUA). Em uma continuidade distinta, mais orgânica que individual, dos Revs. Samuel Rutherford Gillespie, sob os auspícios dos Padrões de Westminster, especialmente a Solene Liga e Aliança, a chama da Verdade passou adiante para os Revs. Cameron e Renwick, e deles para uma longa linha dos Puritanos Escoceses chamados Covenanters, dos quais podemos nomear ainda os Revs. John Cunninghan e James Kerr. Se avaliarmos a base teológica destes homens encontraremos a influência nítida do viés doutrinário dos primeiros e mais destacados Puritanos não-conformistas e da Confissão de Fé de Westminster. É de grande valor notarmos também que a Providência de Deus levou o Rev. Kalley a casar-se com D. Sarah, descendente de uma longa linhagem de Huguenotes, os quais já foram chamados de Puritanos Franceses. Algumas das mais fortes características da teologia dos supracitados homens (tanto dos Puritanos extemporâneos quanto dos primeiros Puritanos), compartilhada também pelos Huguenotes (que viveram sob forte influência de João Calvino), são: a necessidade de conversão individual, de experiências sensíveis na vida Cristã, de desenvolvimento teológico a partir da Escritura (e não a partir de uma tradição, ainda que ao encontro da Fé Cristã Histórica), de uma vida piedosa e santa pautada especialmente nos Dez Mandamentos, além de uma grande ênfase sobre a liberdade Cristã (com consequente valorização do culto familiar ou em pequenos grupos, e adoção de uma liturgia bem simples e ordeira). Note que tais características são  encontradas com nitidez na teologia do Dr. Kalley – o que não é estranho já que estes são alguns dos pontos centrais do movimento puritano como um todo. Infelizmente, as igrejas congregacionais do Brasil além de terem se afastado desta rica herança teológica, aproximaram-se da deplorável e confusa corrente modernista e mística a qual chamamos pentecostismo, a qual parece lhe ter sido trazida pela via do darbismo e do dispensacionalismo. É realmente algo muito triste ver milhares de homens sendo iludidos e levados a crer em “dons” mirabolantes, pretensas curas divinas, falsas profecias e prognosticações que, pretensamente, seriam a restauração do “poder apostólico” antes do fim dos tempos (estranhamente, o fim dos tempos anunciado tanto pelos pré-pentecostais darbistas quanto pela primeira e segunda ondas pentecostais já está sendo aguardado há mais de duzentos anos, sem, no entanto, vir realmente a ser). Quanto a estas questões, a Igreja Kalleyana mantêm o mesmo posicionamento sobre a obra do Espírito Santo que encontramos em Calvino, Owen, Edwards e outros Santos homens do passado – recusamos a hermenêutica experiencial e mística do pentecostismo e abraçamos as seguintes declarações sólidas (constantes da Confissão de Westminster):

“Deus [que governa todas as coisas] normalmente faz uso de meios em Sua Providência; contudo, Ele é livre para operar sem, acima de ou contra estes meios ordinários, conforme o beneplácito de Sua vontade”
[Atos 27:31,44; Isaías 55:10,11; Oséias 1:7; Romanos 4:19-21; Daniel 3:27]

“Todo o conselho de Deus, concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens.”
[2 Timóteo 3:15-17; Gálatas 1:8,9]

Recusamos, portanto, debater quaisquer questões sobre cessação ou continuidade de determinadas operações maravilhosas de Deus, exceto que se tenha em consideração ambas as supracitadas cláusulas – qualquer discussão que tente fugir das premissas acima é uma armadilha pentecostista e não leva os homens a lugar algum. Cremos que o Senhor é Soberano e Poderoso para fazer o que Ele desejar fazer [Salmo 115:3], usando os meios que Ele desejar usar; contudo, sabemos também que Ele tem o sumo propósito de, através de todas as suas ações, combater o pecado e redimir os homens por meio da Fé em Cristo Jesus, e do anúncio deste Crucificado [1 Coríntios 2:2; João 1:14-18; 2 Coríntios 4:3-6; Hebreus 1:1-3] – nosso Senhor Cristo Jesus é revelado em Seu caráter e em Sua obra de Salvação, tanto naquilo que é comum quanto naquilo que é extraordinário, segundo a soberana e sempre sábia decisão de Deus, que ordena como e quando operará cada uma destas coisas, estabelecendo limites para Si mesmo e para a operação de Seu poder, dentro do propósito da Salvação dos Seus eleitos. Por isso, repito: é uma armadilha discutir sobre supostos dons espirituais sem antes desfazer a aborrecível cosmovisão antropocêntrica pentecostista.
Quanto aos dois Sacramentos, que igualmente foram pervertidos no pentecostismo e no dispensacionalismo, também a Igreja Kalleyana permanece na mesma Fé e na mesma prática que tanto os Puritanos, quanto os Reformadores antes destes, e inúmeros outros Santos homens se fixaram durante todos os séculos passados, firmados na Escritura Sagrada: batizamos por aspersão tanto aos convertidos quanto a seus filhos pequenos; rememoramos a Ceia do Senhor como ela foi instituída na Sagrada Escritura, com um pão, uma mesa e um cálice comuns, somente podendo tomar parte da Mesa do Senhor aquele que, sendo membro de uma congregação em comunhão conosco, professa com conhecimento a Fé em Cristo Jesus e não é causa de tropeço ou escândalo para os irmãos ou para os de fora. Também estas características não são encontradas em outra denominação congregacional brasileira, e com raridade (com tristeza constatamos) temos encontrado a obediência a forma deste Santa instituição respeitada em denominações presbiterianas ou batistas. Com alegria, segundo nos conduz nosso Senhor, temos crido e ensinado junto aos Sacramentos que Deus constituiu Uma Única Aliança Eterna, firmada na Graça e na Misericórdia em Cristo Jesus e que revelou progressivamente Sua Aliança para o povo que elegeu para Si em Cristo desde a eternidade passada, até que o clímax e o fim da revelação foi alcançado no estabelecimento da Igreja – a ausência desta visão de Aliança e Pacto destrói a compreensão da continuidade Sacramental entre o Velho Testamento e o Novo e, portanto, faz com que as bênçãos familiares da Aliança, cujo aspecto mais externo é o batismo infantil, sejam ignoradas e esquecidas com grande prejuízo à Igreja; isto faz ainda, que a vã esperança de novas revelações de Deus abra a porta aos mais absurdos hábitos, tradições e doutrinas. É verdade que, não raro, temos sido questionados quanto a forma que cremos e defendemos da Teologia da Aliança, porque muito se divulgou no Brasil uma suposta conversão de Kalley ao credobatismo (ou seja, doutrina que permite apenas o batismo de adultos que professem a fé em Cristo). Os que assim falam desconhecem a missiologia Puritana que o Doutor (assim como João Calvino, Hudson Taylor e William Carey – para citar os mais conhecidos) adotavam (com diferentes nuances, a base desta missiologia é tripla: a crença no sacerdócio universal dos crentes como garantia ao livre exame da Escritura Sagrada, na invisibilidade e espiritualidade do culto e na importância da redenção cultural que o Evangelho deve operar em cada povo) e, desconhecem também, a posição mais de uma vez expressa pelo Rev. Kalley, que tanto ensinou os crentes da igreja que fundou na Ilha da Madeira (e que o acompanharam no início dos trabalhos no Brasil) a batizarem seus filhos recém-nascidos, quanto ministrou ele mesmo as cerimônias. Ademais, o tempo em que o Reverendo esteve diretamente a frente do trabalho no Brasil (1855-1876), não foi o suficiente para, uma vez plantada a congregação, ver nascer filhos ao seus convertidos ou, até mesmo, ver um membro solicitar o batismo de seu filho (solicitação esta bastante possível, uma vez que, pelo menos até 1858, há sólida e documental evidência de que todos os membros da igreja aqui fundada eram pedobatistas, e até 1876, há igualmente sólida prova de que mais da metade continuavam pedobatistas). Por fim, é valioso ressaltar que o Reverendo jamais escreveu um artigo atacando o batismo infantil (como costumava escrever contra aquilo que ele considerava errado),  e que Kalley sempre esteve aberto tanto a receber ministros presbiterianos (portanto que batizavam crianças) como seus colaboradores na Igreja Evangélica, e até a entregar a Igreja que fundara no Brasil ao cuidado da Igreja Presbiteriana da Escócia caso não fosse possível mantê-la (e isto, já após 1871). Quanto a linguagem utilizada pelo Reverendo em seus 28 Artigos, quando trata do batismo (e mesmo em certas cartas pessoais), não podemos tomá-la por evidência de que o batismo infantil lhe fora aborrecível; é interessante observar que John Owen e John Bunyan utilizam a mesma linguagem em seus escritos, apesar de serem claramente pedobatistas, linguagem muito diferente, por exemplo, da Confissão de Fé Batista ou dos escritos de Hudson Taylor ou de Charles Spurgeon, que utilizaram termos muito claros e bastante fortes para fazer oposição ao batismo infantil. Por fim, quanto a Aliança do Senhor, rejeitamos o dispensacionalismo, o darbismo, a teoria da natureza dual e tantas outras inúteis filosofias e tradições humanas que ganharam espaço dentre as igrejas brasileiras desde o fim do século XVIII. Cremos na Teologia da Aliança, reafirmamos – no Eterno e Único Pacto de Deus em Cristo para Salvação da humanidade, selado no Conselho da Triunidade Santa do Altíssimo, desde antes de haver Tempo, administrado com distinções entre a Velha e a Nova Aliança, porém com continuidade; e, quanto as demais invencionices citadas, é recomendada a leitura do texto No que Cremos, disponível neste mesmos site, onde nossas raízes teológicas são indicadas.
Verdadeiramente temos muito pesar pela situação das igrejas no Brasil. Nosso sincero e profundo desejo é que fosse possível uma grande união dentre todas estas congregações e uma colaboração mútua para realizarmos a Vontade do Senhor e pregarmos o Evangelho à nação. Infelizmente, danosas heresias como arminianismo, dispensacionalismo, hypercalvinismo, modernismo, pósmodernismo e o já referido pentecostismo fizeram seu caminho para dentro das denominações que deveriam rejeitá-los e já estão tão enraizados nelas que são considerados como padrão, enquanto o Calvinismo e a Ortodoxia kalleyanos são tidos como estranhos e indesejados. Não há recursos (nem interesse dos homens no poder) para que haja uma verdadeira purificação no meio congregacional, e, tememos, também parece ser assim junto aos presbiterianos e batistas; não parece haver o mínimo desejo daqueles que tem tomado para si poderes nestas denominações em se expulsar os pentecostistas, dispensacionalistas, arminianos e outros portadores de falsas doutrinas e falsas profecias. É mui lamentável tal cois, pois jamais uma Igreja deve tolerar quem ensine o erro em seu seio, erro que redundará em pecados e abominações, e em julgamentos [Apocalipse 2:12-29]. Estes, que aqui apresentamos, são apenas alguns dos dolorosos motivos que nos levam a clamar por Reforma e que nos levaram a romper relações com as denominações que antes nos hospedaram para iniciar uma denominação nova. Muito nos machuca ter de fazer algo assim, e sabemos que seremos constantemente acusados de facciosidade. No entanto, veja o exemplo da História: Lutero iniciou a Reforma Protestante, separou-se da Igreja Católica e iniciou o movimento que resultaria na Igreja Luterana. Seria ele um cismático faccioso? Não. Porque antes de ele fundar a Igreja Luterana, a Igreja Católica Romana partiu da Verdade para a mentira. Portanto, a culpa da divisão institucional não foi de Lutero (que permaneceu ao lado da Verdade) mas dos Romanistas que deixaram a Igreja de Cristo para fundarem sua própria religião. Agora, note que após Lutero romper com o Romanismo, nenhum outro Reformador tentou as pazes com o Papa e seus asseclas. Isto porque eles sabiam que em lugar de desgastarem-se para restaurar o que Deus mesmo já rejeitara, era mais proveitoso, sensato e condizente com a Escritura que, fora da estrutura da igreja corrompida, eles se unissem em prol de uma só nova igreja, a Igreja de Fé Reformada. Assim, não é por facciosidade nem para nossa glória que inciamos e conclamamos esta Reforma no Brasil – é por amor a Verdade, porque as igrejas brasileiras tem deixado a Igreja de Cristo para fundarem sua própria religião e estão se afastando cada vez mais da Verdade; porque a estrutura organizacional das denominações está corrompida e, em declaração oficial, os líderes das denominações em apostasia dão seu aval ao falso culto e às falsas doutrinas que gangrenam sua estrutura. Esta apostasia chega a tal ponto, que o coração da Reforma Protestante (os chamados Cinco Solas – Salvação somente em Cristo, em quem somos justificados somente pela Fé, segundo somente a Graça de Deus opera, conforme Somente as Escrituras revelam sobre o Senhor, tudo somente para Glória de Deus) são completamente desrespeitados na imensa maioria das congregações, tanto pelos desvios arminianos e pelagianos (o uso de “apelos para ir á frente” no final do sermão, os “cultos” jovens com música instrumental e manipulação psicológica, adoção de metodologias empresariais para “crescimento” e para gestão da igreja, etc.), quanto pelos desvios pentecostistas (pretensas revelações extrabíblicas, promessas de cura pela fé, teologia da prosperidade, uso do “poder da mentalização e das palavras”, etc.). Ora, todas estas coisas ofendem ao nosso Salvador e provocam-lhe a Ira, pois desviam os homens de contemplá-lO como seu maior e único tesouro, excitam suas concupiscências e dirigem-nos ao engano, à justiça própria e a autoglorificação. Oh, quão perverso e promíscuo o caminho as igrejas têm trilhado; como nos remoem os ossos ver tanta imundície onde a Santidade e a Justiça deveriam habitar! Oremos, amado leitor, oremos! O povo deve voltar-se para a Palavra de Deus, arrepender-se e buscar obedecer a tudo o que o Senhor diz, em lugar de deixar-se levar pela imaginação humana e pelos desejos do coração decaído. Não podemos cultuar ao Senhor Todo-Poderosos simplesmente como inventarmos; não podemos serví-lO simplesmente da maneira como nos convir; não podemos aceitar sequer uma doutrina sem buscar na Escritura a comprovação da Verdade; não podemos, ah sobretudo não podemos nos deixar mover da Cruz de Cristo para qualquer outro lugar! Só na Cruz há paz e perdão, só na Cruz há reconciliação para os pecadores! Nem o entretenimento, nem belos corais, nem os salões lotados, nem o dinheiro, nem a influência política, nem a amizade dos apóstatas, nada disto pode comprar o tesouro que aguarda o miserável pecador que se rende aos pés da Cruz, e deseja, e confia somente em Cristo Jesus para seu Senhor e Salvador! Nem a vontade humana, nem amuletos e campanhas, nem método algum, nem filosofia alguma, nem pretensos profetas, nem falsos apóstolos, nem nada no mundo pode nos dar a Salvação que Cristo dá Aqueles que Ele ama.

A História da Igreja Kalleyana
Voltemos pois, a falar sobre a Igreja Kalleyana, que, graças ao Bom Deus, tem recebido através do e-mail de um de seus principais Órgãos de comunicação – o Jardim Clonal – palavras de total apoio e uma crescente ajuda, em forma de orações e preciosos contatos de crentes de várias partes do Brasil e do exterior, especialmente de grupos reformados dos Estados Unidos da América do Norte e da Grã-Bretanha.
Como já foi dito aqui, as bases para o surgimento da Igreja Kalleyana já vinham sendo preparadas geração após geração pela Providência de Deus, que guiara, pelo Seu Espírito e pela Palavra, vários diligentes ministros ao encontro da Sã Doutrina tão precisamente indicada pelos 28 Artigos que o Rev. Kalley nos legou como Declaração de Fé da igreja que fundara. Um destes homens foi o Reverendo Elmir de Oliveira Júnior, que, crescentemente separou-se da doutrina corrompida do meio congregacional onde era pastor, e aproximou-se do Puritanismo de Kalley. Então, para partilhar com o rebanho de Deus sob sua guarda, o puro e simples Evangelho de Cristo por ele redescoberto, o Reverendo Elmir elaborou o Pequeno Catecismo Congregacional Kalleyano – baseado na Teologia Reformada – de maneira condizente tanto com a grande obra chamada O Catecismo dos Dissidentes (no qual doutrina, piedade e história eclesiástica se fundiam de maneira única revelando uma forte, porém implícita, crença na Soberania de Deus) quanto, sob direta consulta, com os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo. O Reverendo Elmir elaborou ainda outro escrito, igualmente Reformado, constante de devocionais e pequenos textos doutrinários, intitulado Reflexões Bíblicas. Estes escritos foram a fagulha que acendeu nas igrejas de Magé e Teresópolis (que estavam sob a responsabilidade do amado Reverendo) a chama do amor pela Verdade. Logo, somaram-se a eles na Reforma Kalleyana um pequeno grupo que frequentava cultos domésticos em Angra dos Reis, de onde nos foi dado o Professor Ademir Filho – um incansável pesquisador da história da Igreja e profundo conhecedor das doutrinas expostas pelo grande Mestre de Genebra, João Calvino e pelos gigantes Puritanos. Com o progresso da Palavra em nosso meio, segundo a disposição do Santo Espírito em nós, uma vez articulado o eixo Magé-Teresópolis-Angra, arregimentamos a memorável Assembléia Especial e Extraordinária na maior das três congregações – Magé. Neste dia de grande restauração na Igreja de Cristo, o Rev. Elmir Júnior e o Professor Ademir Filho expuseram pelas Escrituras a necessidade de deixarmos a presente conjuntura da união de igreja da qual fazíamos parte e lançarmos às mãos ao arado, para plantarmos a fiel Palavra e colhermos os frutos da ortodoxia. Ouvimos como o Brasil clama por uma igreja pura, forte e viva, livre das heresias do pentecostismo, arminianismo e outras formas de livre-arbítrio, arianismo, dispensacionalismo, antinomianismo, socianismo e tudo o mais que for avesso ao ensino da Escritura. Uma igreja capaz de ao mesmo tempo difundir o Verdadeiro Evangelho, tão precisamente delineado nas doutrinas Calvinistas, e resgatar o heróico trabalho realizado pelo amado casal de Puritanos Dr. Robert e Sarah Kalley cujas atividades, tanto no Brasil quanto em outros países, demonstram tão bem o intuito deste único e Verdadeiro Evangelho: manifestar o poder de Deus e glorificá-lO ao trazer a Palavra regeneradora ao homem e restaurá-lo assim, em Cristo, ao seu propósito inicial de submeter ao Senhor todo o seu ser. Por isso, como exemplo e inspiração, olhamos para o trabalho do Rev. Kalley que ao pregar o Evangelho, cuidou de trazer a redenção de Cristo ao corpo e à alma dos homens: Kalley labutou para construção de escolas e hospitais; participou com outros missionários e ministros Cristãos de todo o mundo nos apelos para construção de Universidades e no zelo pela existência de bons Seminários Teológicos, e influenciou governos para que a legislação e os cuidados médico-sanitários fossem concordes com o que a Escritura ensina (inclusive no Brasil, junto ao imperador D. Pedro II, que tornou-s seu amigo pessoal); buscou constantemente o bem dos desvalidos e marginalizados, acolhendo inclusive escravos em uma classe de Escola Dominical e manifestando-se contra a escravatura; dentre inúmeras outras ações. Esta é a vida do Verdadeiro Evangelho, que, pelo Santo Espírito, conduz os Cristãos à caridade com os pobres, viúvas e órfãos, e ao progresso da civilização pela Lei e pelo Governo de Deus. Como é maravilhoso vermos esta prova de amor em Cristo mudar a face do mundo; quanta glória e louvor ao Santo e Altíssimo Deus nos conduz observar a vida de homens como Robert Kalley, João Calvino e William Carey, e a mudança que, através deles, o Evangelho de Cristo Jesus opera no mundo!

A Teologia da Igreja Kalleyana
A Igreja Kalleyana possui 5 Símbolos de Fé – eles contém um maior caráter natural, histórico e narrativo em lugar de um caráter maiormente ou puramente sistemático. Isto significa que, em concordância com a teologia do Rev. Kalley e de John Owen, dentre outros Puritanos, e segundo aquilo que consideramos um correto entendimento da Escritura Sagrada, não cremos que uma Confissão de Fé sistemática e específica seja o único caminho e limite seguro para a ortodoxia, ou a prova da salvação de alguém. Note, por exemplo, que quando Oliver Cromwell (general congregacionalista que governou a Inglaterra) solicitou a John Owen uma Assembléia que elaborasse um documento para o Congregacionalismo, o amado teólogo não nomeou este documento como Confissão, mas como Declaração de Fé (a Declaração de Savoy) – o que estava sendo frisado nesta mudança de termos em relação a Confissão de Westminster era exatamente o aspecto Universal e Invisível da Igreja de Cristo – a fé era declarada conjuntamente segundo aquele documento ao que os homens responderiam conforme suas consciências iluminadas pelo Espírito e o exame da Escritura. Estes antigos Puritanos declaram-nos constantemente em suas obras que, como Cristãos, devemos temer o sectarismo ou, como o Rev. Kalley o chamava, o denominacionalismo estrito – que é o erro de confundir alguma manifestação específica da Igreja Visível com a Igreja Invisível; o sectarista afirma que somente o seu exato grupo possui a autoridade de Cristo. Há, sem dúvida, um sentido em que o verdadeiro Cristianismo é sectário pois há um corpo de Doutrinas que é o limite da Verdade; há um ponto de onde não se pode passar sem deixar de ser verdadeiramente Cristão imediatamente ou em curto prazo. Mas este ponto não é denominacional, não é institucional e não é compreendido por uma organização visível específica; além disto, este ponto pode ser descrito de diversas maneiras diferentes, sendo identificado não pela exata formulação de seu enunciado, mas pela exegese bíblica que prova a evidência histórica. O amado John Owen, ao versar sobre os limites da correta interpretação da Escritura, disse que toda verdadeira exposição da Bíblia deveria: “concordar com os princípios Cristãos, com os pontos do catecismo estabelecidos no Credo Apostólico, com a oração do Pai Nosso, com os Dez Mandamentos e com a doutrina das ordenanças”. Ponderando sobre isto, é útil recordarmos dois exemplos:
1) Na história da Doutrina da Triunidade de Deus, encontramos formulações verdadeiras sobre a Trindade nos escritos dos Pais Apostólicos (os teólogos Cristãos do primeiro século, como Irineu de Lyon); porém não as encontramos com as exatas palavras do Credo Atanasiano. Isto não significa que Irineu de Lyon, por exemplo, não cria na Triunidade de Deus como nós cremos, mas que ele formulou a mesma doutrina com outras palavras.
2) Na história sobre o modo de Governo da Igreja autorizado por nosso Senhor na Escritura, encontramos o único modo verdadeiro e autorizado de Governo – aquele que chamamos Puritano – praticado desde a antiguidade e descrito até mesmo por alguns antigos teólogos dos séculos II e III.

No entanto, dentro dos limites desta forma de Governo, os Cristãos escoceses elaboraram o seu Presbiterianismo e alguns grupos da Holanda elaboraram a sua organização eclesiástica, de tal forma que tanto o Presbiterianismo Escocês quanto certos grupos da Igreja Reformada Holandesa manifestaram uma forma peculiar, porém fiel, da forma de Governo Puritana, ainda que o chamassem por outro nome.
Por isso, não podemos aceitar que se diga que somente a Confissão de Westminster, somente as Três formas de Unidade ou somente os Padrões Kalleyanos representam ou sistematizam corretamente a Verdade absoluta e inerrante contida na Escritura. No prefácio da referida Declaração de Savoy, a sábia voz dos Puritanos se faz ouvir na seguinte declaração:
“Confissões, quando feitas por uma companhia de Professores de Cristianismo reunidos em assembléia para este fim, seguem seu mais genuíno e natural uso o qual é, que sob a mesma forma de palavras, eles expressem a substância da sua comum Salvação e da unidade de sua fé; pelo que falando as mesmas coisas, eles mostrem-se perfeitamente unidos na mesma mente, e no mesmo julgamento [Coríntios 1:10].
Por conseguinte, tal Confissão é para ser vista como um apropriado meio através do qual expressamos nossa comum fé e Salvação, e não deve de modo algum ser usada como uma imposição: Tudo o que é por força ou constrangimento em matérias desta natureza, causa que as Confissões degenerem do nome e natureza de Confissões, e, de Confissões de Fé se tornem em Imposições de Fé.”

Até agora, nestas primeiras reflexões sobre o uso de Confissões de Fé, vimos que o sectarismo é, sem dúvida, um grande mal; porém são males ainda maiores a falsa religiosidade gerada pela Fé imposta, e o sincretismo ou corrupção doutrinária que a falta de documentos e de um sistema teológico (ou sua compreensão equivocada) inevitavelmente gera. Uma Confissão, Símbolo ou Declaração de Fé, corretamente compreendida, combate todos os três problemas: anula o sectarismo ao proclamar uma Fé que ultrapassa o Tempo e o Espaço denominacionais; anula a religiosidade imposta por ter como natureza uma comum e voluntária compactuação, firmada entre Cristãos submissos à Escritura Sagrada e guiados pelo Espírito Santo como reflexo de sua união em Cristo Jesus; e, impede a corrupção doutrinária ao estabelecer padrões claros e fixos baseados nos antigos marcos da ortodoxia histórica e bíblica. Saber destas coisas nos traz muito pesar quanto ao presente estado daqueles que professam o Cristianismo, pois em toda parte há um grande desconhecimento da Verdade e, portanto, um mal uso (ou até a rejeição) das Confissões e Símbolos de Fé. Esta lamentável falha em obedecer nosso Senhor faz com que um crescente número de homens não conheçam a Cristo Jesus, e que seja tão raro encontrar uma igreja fiel. Porém, a simples adoção de documentos ortodoxos, por si só, não purifica uma igreja – no Brasil tanto a Igreja Presbiteriana quanto as Congregacionais tem documentos cuja base doutrinária é correta, sem que isto torne sua prática correta. É necessário ter tais documentos – é mesmo um dever Cristão tê-los, pois nosso Senhor nos comanda a confessá-lO, com razão e entendimento, em conjunto com a Igreja [Romanos 10:9-10; Hebreus 4:14; Marcos 12:33; Judas 3]; porém, tão importante quanto a adoção de documentos de Fé bíblicos, é ter uma correta compreensão destes pela Escritura, segundo a iluminação do Espírito e assim praticá-los. E isto não vêm dos documentos em si, mas é ação Soberana do Espírito de Deus pela Palavra e em Sua Graça; e Deus pode fazê-lo em uma igreja que confesse Westminster, Savoy, As Três Formas de Unidade, os 28 Artigos de Kalley ou qualquer outro documento solidamente baseado na Bíblia e que contemple o coração das doutrinas Cristãs. Ressalto que esta pequena crítica, tanto positiva quanto negativa, do papel das Confissões de Fé (a qual lemos tantas vezes nos sermões do Rev. Kalley e de John Owen, dentre outros amados Puritanos), não significa que a Igreja Kalleyana (ou que Robert Kalley ou os Puritanos) faça oposição a existência de Confissões de Fé; já destacamos a necessidade da existência de documentos doutrinários. Todavia, é nossa responsabilidade alertar, como já alertamos, sobre os grandes perigos que existem nisto: por um lado, há o perigo de que os documentos sejam exaltados acima da Escritura e se tornem um outro mediador entre Deus e os homens – o que é odiosa idolatria, e causa tanto o sectarismo (igualando, de forma terrivelmente equivocada, o conhecimento dos documentos ao conhecimento de Deus) quanto o sincretismo (pela intrusão inevitável da imaginação humana no documento idolatrado, impedindo, entretanto, que esta intrusão seja corrigida pelo confronto com outros Símbolos de Fé e, sobretudo, com a Escritura); por outro lado, há o perigo de que os Símbolos não sejam conhecidos do povo e não tenham nenhuma aplicação para nos tornar mais humildes, tementes e confiantes em Deus (e dotados de grande anseio em serví-lO como Ele se agrada e de adorá-lO somente como a Escritura comanda) e aptos para as boas obras para com o próximo – pois os que confessam a Fé com uma compreensão metódica mas não vivem conforme esta fé, são desprezíveis hipócritas. Por isso, a Igreja Kalleyana considera que obras do passado como A Declaração de Savoy e o Catecismo de Heilderberg devem ser usadas para se dirimir dúvidas e desfazer conflitos doutrinários nos Concílios e Sínodos; para nos direcionar mais e mais a Cristo dando-nos a esperança e a prova de que Deus sustenta Sua Igreja em todos os séculos; para constante educação e meditação aos ministros do Evangelho e para uso particular das famílias e das escolas na educação dos filhos da Aliança e para devoção pessoal; paralelamente, confessamos e subscrevemos plenamente os Padrões e Diretórios de Westminster como fiel exposição da Sagrada Escritura e regimento submisso a Bíblia para nos guiar na compreensão dos seus ensinos – e tudo isto, ainda que não consideremos nenhuma destas obras perfeita, inalterável, necessária ou insubstituível; pois estas obras são, como dito, guias para encontrar com mais facilidade o caminho de nossa peregrinação nas Escrituras, sendo esta a Palavra final e definitiva (e jamais o inverso deve ser sequer cogitado); entretanto, consideramos também que tais obras não são o único limite e caminho para a ortodoxia, confessando nossa comum Fé também através de outros documentos. Exatamente pela soma destas razões, nós elaboramos nossos próprios Símbolos de Fé, para confessar neles a universalidade da invisível Igreja de Cristo através do nosso reconhecimento paralelo e harmônico dos documentos do passado, declarando o amor pela nossa herança Puritana hoje sintetizada no sistema teológico chamado Calvinismo (e reconhecendo nela a Graça de Cristo para com Sua Igreja por sustentar esta genuína Fé Cristã em todos os séculos, ainda que sob diferentes rótulos) e desejando, contudo como igreja autóctone (segundo esta mesma livre Graça de nosso Senhor), sermos capazes de inspirar ortodoxia e piedade ao ensinar teologia pelos nossos próprios Símbolos de Fé, com uma linguagem e maneira acessível ao povo comum, com especial amor pelo coração do povo brasileiro e subequatoriano, cuja cultura, costumes, pecados, pensamentos e dificuldades nos são tão próximas. Além disso, nossos Símbolos de Fé combatem diretamente heresias e falsos ensinos que assaltam o povo de nossas igrejas hoje e, ao que parece, no imediatamente futuro século [o texto refere-se aqui ao século XXI]. Cremos que este é o verdadeiro espírito da Reforma: não simplesmente repetir antigas fórmulas, mas ser capaz de, conservando as antigas fórmulas, ensinar como as eternas Verdades são aplicadas e vividas hoje; aprendemos isto, pela Escritura e nos foi exemplificada esta prática na vida daqueles preciosos Puritanos, que elaboraram tantos catecismos, credos e confissões para instrução de suas igrejas; sem, no entanto, desprezar os catecismos, credos e confissões históricos.
Nossos Símbolos de Fé são:

1) Historicamente, ‘Os 28 Artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo’, e seus derivados Kalleyanos: o Catecismo Kalleyano, O Bem-Aventurado Senhor do Senhores Jesus Cristo e as Reflexões Bíblicas;

2) Doutrinariamente, como Símbolo Primário, Os Padrões de Westminster;

E estes são os documentos que reconhecemos secundariamente, humildemente subtendo-nos a verdade bíblica preservada e transmitida, muitas vezes ao custo da vida de preciosos irmãos, na história da Fé Cristã Reformada. A estes estritamente subscrevemos, considerando-os em tudo concordantes com nossos padrões primários:

1) Declaração de Fé Escocesa e seus demais documentos históricos

2) As Três Formas de Unidade.

3) A Declaração de Savoy

Pelo mesmo motivo, confessamos ainda a Fé conforme os seguintes Credos Universais:

1) Credo Apostólico;

2) Credo Niceno;

3) Credo Calcedônio;

4) Credo Atanasiano.

Inquietações Kalleyanas
Buscamos, confiados no Amor dAquele que nos salvou, pregar todo o conselho de Deus  ao povo Kalleyano – e encontramos precioso auxílio em nossos Símbolos de Fé para isto. Sem ignorar este necessário equilíbrio, temos, no entanto, certos pontos que aprendemos da Escritura Sagrada, os quais permeiam constantemente nossas publicações e reflexões, pontos estes que cremos serem pilares da Verdade do Evangelho de nosso Senhor Cristo Jesus. Ouvimos cada uma destas doutrinas ser pregada com especial frequência nos sermões daqueles gigantes que Deus deu para edificar Sua igreja, tanto nos mais antigos teólogos dos primeiros séculos, quanto em João Calvino e nos mais diversos Puritanos, portanto, também (especialmente e com forte ênfase) em Robert Kalley. Temos, portanto, em destaque as seguintes doutrinas e formas do Conhecimento de Deus:

Doutrina I.     A Soberana Graça de Deus
1.    Sem interrupção alguma, o bondoso Deus Altíssimo sustenta, governa e ordena toda a Criação, segundo Sua Santa e infalível Vontade – nada acontece sem a Sua determinação [Hebreus 1:3; Jó 38:11; Isaías 46:10,11; Salmo 115:3; Salmo 135:6; Atos 2:23; Provérbios 16:33; Mateus 10:29-30].
2.    Portanto, Ele é a fonte de todo bem, espiritual ou material; todo o bem que recebemos, recebemos dEle, não segundo nosso mérito – porque o pecado faz separação entre nós e Deus – mas, somente pela Sua generosa Graça (que nos contempla em Cristo) e pela Sua clemente Misericórdia (que não nos destrói imediatamente, destruição esta que seria muito justa) [Tiago 1:17; Lucas 11:13; Salmo 103:10; Salmo 145:15-16; Atos 14:17; Colossenses 1:17; Isaías 58:2; Mateus 1:21; 2 Coríntios 5:21; Hebreus 9:7; 2 Pedro 3:9].
3.    Assim, Deus nos visita em nosso cotidiano e manifesta a Sua Graça e a Sua Soberania todo o tempo: enquanto trabalhamos, estudamos, comemos ou bebemos; onde quer que estejamos. E isto deve ser reconhecido e honrado por todo homem, como culto mesmo, conforme até mesmo nossa consciência denuncia. Entretanto, por causa do pecado de Adão, no qual toda a humanidade foi corrompida, todos somos condenados diante de Deus por não reconhecermos Sua bondade e não respondermos ao Senhor com a devida gratidão e amor [Hebreus 4:9; Zacarias 14:20-21; Habacuque 2:14; João 11:4; 1 Coríntios 10:31; Apocalipse 4:11; Isaías 43:6-7; Salmo 105; Romanos 5:12; Efésios 2:3; Provérbios 8:13; Isaías 13:9-13] .

4.    Todavia, em Sua Suprema Graça e bondade, Deus escolheu em Cristo, antes de haver mundo, um certo número de homens dentre a futura humanidade ingrata e rebelde, para que fossem Salvos de seus pecados e da Ira que os havia de consumir no Juízo Final [Efésios 1:4-11; Romanos 8:30; 2 Timóteo 1:9; 1 Tessalonicenses 5:9; Romanos 9:13-16; Efésios 2:5-12].
5.    Na plenitude do Tempo, por obra de Sua Graça e Amor, Deus enviou Seu Filho, Jesus Cristo, para plena obediência a Sua Lei em perfeita retribuição ao Amor de Deus Pai, e para morrer maldita morte de Cruz com perfeita humildade e abnegação  – tudo isto, como perfeito substituto dos pecadores que foram escolhidos desde a Eternidade, para serem, em Cristo, perdoados (porque sua condenação foi executada sobre Ele na Cruz) e justificados (porque a obediência de Cristo lhes é imputada segundo a fé nEle) [João 3:16; Gálatas 4:4; Hebreus 9:14; Romanos 3:24-26; João 17:2; Efésios 1:7; 1 Coríntios 1:30,31].
6.    Em determinado momento de suas vidas, os homens eleitos pela Graça de Deus são chamados pela livre pregação do Evangelho e convertidos pelo Santo Espírito em Soberana obra de regeneração, para, com novo e quebrantado coração, serem feitos Filhos de Deus, dotados de plena confiança em Cristo Jesus somente como seu suficiente Salvador,  descansando nEle, e sendo, no bom uso dos meios que Ele providenciou, santificados até o dia final, quando serão glorificados e habitarão com nosso Rei e Salvador nos céus para sempre [Salmo 147:20; Atos 16:7; Romanos 1:18; Tito 3:2-5; Efésios 1:5; Gálatas 4:4-6; João 1:12; Romanos 8:17-33; 1 Coríntios 4:7; Jeremias 23:6; Mateus 20:28; 1 João 4:10; 2 Tessalonicenses 2:13].

Doutrina II.     A Notável Conversão dos Pecadores
1.    Pela rebelião de Adão, o pecado adentrou a outrora boa Criação de Deus e se estendeu hereditariamente a natureza de todos os homens por todas os séculos da presente maligna era, tornando-nos mortos em nossos delitos e pecados desde a nossa concepção. Contudo, segundo Sua Soberana Graça, o Senhor, no momento em que Lhe for aprazível (seja na mais tenra idade ou nas últimas décadas da vida), ilumina, por Seu Espírito e por Sua Palavra, a mente daqueles que Ele escolheu salvar desde antes da fundação do mundo. Esta iluminação dá compreensão espiritual e liberta o homem do seu estado natural de morte e pecados, para alegrar-se em Cristo e no Reino de Sua Graça, com todos os outros Salvos em Cristo Jesus, para sempre [Romanos 5:12-14; Jó 14:4; Salmo 51:5; Efésios 2:3-5,6:12; Salmo 65:4; João 16:14; 1 Coríntios 2:12; 2 Timóteo 1:12; Hebreus 11:13; Gálatas 2:20].
2.    Este chamado de Deus para a vida em Cristo dispõe o coração do homem para a Salvação e desperta nele o desejo sincero de render-se aos pés da Cruz e ter sobre si o precioso Sangue do Cordeiro Santo, ao mesmo tempo em que Deus mesmo traz ao homem estas coisas; portanto, é um dom gratuito e especial que provém do Senhor – não pode vir da vontade da carne, nem da vontade do homem, nem de algo que anteriormente exista no homem, nem sequer de cooperação alguma de poder algum. A Deus somente cabe a Glória por cada alma que é salva [Jeremias 31:33; Ezequiel 11:19; Efésios 6:16; 1 João 5:4,5; Hebreus 12:2; Colossenses 2:2; João 1:13,14].
3.    Apraz a Deus, em Sua insondável sabedoria, que alguns dos eleitos (especialmente aqueles que não provêm da família da Aliança) somente sejam chamados após viverem parte de suas vidas nas trevas e ignorância que a inclinação natural de sua carne deseja e busca; para estes, o momento em que foram convertidos de seu mau caminho de morte para o bom Caminho da vida, que é Cristo, é um momento preciso, sensível e memorável dentre suas experiências Cristãs. A verdadeira fé não é um estudo frio das doutrinas Cristãs, nem uma especulação filosófica sobre a Escritura, nem uma percepção sensória de algo espiritual, mas um conhecimento transcendente a respeito de Deus, conhecimento este que circunda e arrebata as afeições e a vontade do homem convertido, fazendo-o discernir as operações de Deus em sua vida e responder a estas em pronto e sincero amor e dedicação  [Salmo 145:10-12; Marcos 5:19; João 14:15,15:10; 1 Pedro 2:9; 1 Coríntios 6:11; Efésios 5:8; Romanos 8:16,17].
4.    Também é esperado que por um período antes do chamado, o Senhor prepare o coração do pecador, permitindo que este, aos poucos, se aperceba da Majestade, Amor e Santidade de Deus, busque serví-lO e falhe miseravelmente ao tentar agradá-lO e alcançá-lO  através de uma forçosa e carnal obediência a Lei ou ao arremedo religioso da Lei. A denúncia desta contínua falha, operada pela graça especial do Espírito de Deus, humilha o pecador e elimina dele o orgulho e a perversa idéia de que poderia salvar-se a si mesmo por suas boas obras – ambas coisas abomináveis ao Senhor. Nosso Salvador, deixando a Glória inefável, humilhou-se até a morte de Cruz e hoje, ressurreto, está exaltado nos céus; será, portanto, recebido como real salvador somente por aquele que, reconhecendo-O como Deus e Rei, tomando em conta Sua humilhação voluntária e imerecida, receba-O como Deus e Rei exaltado em Glória, humilhando-se, merecidamente, tanto no momento de sua conversão como crescentemente por toda a vida, como pecador miserável que, fora de Cristo, somente encontrará desespero e angústia [Jeremias 3:22; Hebreus 12:12; Salmo 19:3; Salmo 25:18; Mateus 9:10-13; 1 Pedro 5:6,7; Deuteronômio 8:12-18; Provérbios 15:33; Romanos 5:20; Romanos 7:8-12].
5.    Neste quebrantamento operado pelo Santo Espírito, percebendo-se ofensivo a Deus em tudo, assim como percebendo a infinita bondade e o infinito amor do Altíssimo revelados em Cristo, o pecador encontra arrependimento verdadeiro – que é um fruto necessário da fé – e, nele um profundo desejo, em sua mente e em seu coração, de, com ódio rejeitar o mal de sua alma e, com amor acolher em si a Santidade de Cristo em comunhão e união com Ele. Pelo arrependimento o Cristão é conduzido, tanto no momento de sua conversão quanto crescentemente por toda a vida, a uma santa tristeza e a aborrecer a si mesmo pelo pecado, ao mesmo tempo em que é impulsionado ao consolo e alegria do Espírito em Cristo, orando incessantemente pelo perdão divino, pela santificação do Nome do Altíssimo, pela Sua Vontade em nosso meio e pela crescente revelação de Seu Reino e reformando a vida em conformidade com estas petições, pelo gracioso auxílio do Espírito, segundo a esperança da promessa de Cristo em nós [Isaías 61:1,42:3; Salmo 34:18; Salmo 14:1-3; Salmo 53:1-3; Eclesiastes 7:20; Salmo 101; Lucas 19:8; Lucas 22:31,32; Atos 11:18; Ezequiel 36:31; 2 Coríntios 7:11; Salmo 119:6,128; 1 Timóteo 1:13-15].
6.    A genuína conversão e fé, que o Santo Espírito soberanamente opera, segundo a Graça de Deus Pai, pelo anúncio do Evangelho de Cristo Jesus, desperta os sentidos espirituais do pecador para que perceba o grande risco que corre, pelos seus pecados: o de ser receptáculo da Ira de Deus. Há, porém, descanso no coração regenerado, pois Deus promete ao pecador arrependido desviar dele Sua Ira, uma vez que Cristo Jesus tomou-a sobre Si na Cruz. De posse de tal segura promessa, o homem, agora Cristão, parte em espiritual peregrinação para a Jerusalém Celestial; peregrinação esta que traduz-se na liberdade que o Espírito comunica ao Cristão para, por meio da Palavra, da Pregação, da Oração, da comunhão dos Santos, dos Sacramentos e das lícitas disciplinas espirituais, pôr seus velhos vícios pecaminosos à morte e vivificar uma nova obediência e vida em Cristo. Um homem verdadeiramente convertido apreende de tal forma o amor revelado de Cristo na Cruz – o eletivo amor do Justo que morre para salvar os injustos que contemplou em Sua Graça – que é, por gratidão e em resposta de amor, constrangido a imitar ao Seu Salvador, diligentemente abrindo mão de si mesmo para gloriar-se somente na Cruz e dedicar-se, em tudo, àquilo que é santo, puro e bom, para o progresso do Reino de Cristo, conforme a vontade de Deus, nosso Pai, em Sua Palavra [Tito 2:11-13,3:5; 1 Pedro 1:23,2:9; Atos 16:14; Romanos 10:17; 1 Coríntios 12:3; Gálatas 5:6,22; Lucas 9:23; 1 Timóteo 1:16].
7.    Pessoas presunçosas e hipócritas pensam alto demais sobre si mesmas e enganosamente consideram-se salvas. Esta presunção de salvação dos hipócritas religiosos está ligada ao fato de que confiam sua salvação àquilo que é incapaz de salvar – um ídolo forjado em sua maldita imaginação, o qual, de tão pequeno em seu hipotético intelecto, pode ser por eles mesmos, conforme seu prazer e vontade, evocado, despedido e dirigido. Há os que se acham salvos simplesmente porque foram batizados; outros se acham salvos porque pronunciaram determinada oração de confissão; outros porque atenderam ao apelo de um pregador e “aceitaram Jesus” diante da congregação; outros ainda porque “decidiram-se por Cristo”; há ainda os que julgam ser prova suficiente de conversão algumas pretensas experiências místicas, êxtases, visões ou audições; e os mais soberbos acham-se salvos por praticarem boas obras e atenderem externamente à religião. A Escritura deixa bem claro que todos os que confiam nestas coisas para Salvação, em verdade perecerão, porque em nada elas colaboram para a Salvação do homem, nem poder algum elas tem para regenerar a alma corrupta. Todavia, aqueles que amam ao Senhor com sinceridade, abraçando ao Senhor Jesus Cristo confiados em Sua Justiça e descansando sob o abrigo da Cruz; estes, toda vez que a consciência lhes acusar de transgredir a Lei, citarão para si as Escrituras Sagradas que testemunham da imutabilidade do Deus que nos elegeu, assim como da infalibilidade do sangue e da retidão do Salvador amado, o qual também é nosso advogado junto ao Pai. Assim, os Cristãos verdadeiros provam constantemente a sua esperança e pregam à própria alma a certeza inabalável do perdão e da fé em Cristo Jesus, verdade esta francamente comunicada pelo Santo Espírito a uma consciência renovada pelo Evangelho e fortificada pelo testemunho de nossa adoção, que o mesmo Espírito, pela viva Palavra, opera. Tal certeza de Salvação não é igualmente clara na alma de todos os crentes, contudo todos estão habilitados a desenvolver tal certeza, recebendo-a pela Graça de Deus, pela especial visitação do Soberano Espírito, não como revelação ou ação extraordinária, mas pelo uso correto, humilde e perseverante dos meios que o Senhor apontou para isto. Todo Cristão deve buscar esta certeza, que confirma a vida de Cristo em nós, baseando-se não em “quantidade de santidade” necessária para tal, mas no reconhecimento da fraqueza da nossa fé em contraste com a riqueza da Graça de Deus; entretanto, o permanente amor de Cristo, a íntima comunhão dos Santos, a repreensão rígida e edificante de Deus Pai, a inclinação geral das afeições e da vontade e a habitação da Palavra na alma são graças que evidenciam secundariamente a eleição e confirmam esta preciosa certeza. Uma vez firmado nesta certeza, o Cristão experimenta crescente paz, alegria e santo entusiasmo no Espírito, assim como grande amor, gratidão e compreensão da presença Majestosa do Santo Deus conosco, tendo seu ânimo e coragem fortalecidos para o serviço ao Senhor e todos os deveres de obediência que são agradáveis á Sua Vontade [Jó :13,14; João 16:14; 1 Coríntios 2:12; Efésios 1:17,8; Gálatas 2:21; 1 Timóteo 2:5; 1 João 2:1-3; 1 João 3:14-24; Mateus 11:28; Filipenses 2:6,7; Hebreus 2:17,18,4:14-16; Romanos 5:2-10; Romanos 8:15,16; 2 Pedro 1:4-11; Isaías 50:10; Salmo 119:32; Tito 2:11-14].
8.    O humanidade foi criada cheia de bondade, justiça e santidade por Deus, em Adão; todavia, decaiu pelo pecado do primeiro homem, e corrompeu-se a tal ponto que todos os homens, depois da Queda de Adão, são ímpios e perversos, seres cujo arbítrio não é livre mas escravo do pecado, poderosos para fazer o mal e desejosos de fazê-lo, seres alienados de Deus e inimigos do Altíssimo. Por isso, a alma de todo homem é como feita de trevas, as quais a luz da consciência não é capaz de iluminar, ainda que seja luz suficiente para que a treva seja identificada como treva e todo homem condenado por amar estas trevas e odiar a luz. O Cristão deve reconhecer isto e saber que ele é como uma ovelha no meio de lobos, não firmando com os ímpios conselho, não entrando com eles em aliança e jugo desigual, nem se deixando levar por suas vaidades – seja por suas vãs conversações ou por suas inúteis filosofias; porém sendo luz em meio às trevas, não evitando ao ímpio, o que é impossível, mas levando a eles o Evangelho, tanto na notícia da livre Salvação em Cristo Jesus, quanto em toda a bondade, auxílio, esperança e mansidão que testemunham de Cristo em nós. Pois o Cristão, recriado segundo a imagem de Cristo Jesus, ainda que conserve a corrupção de natureza herdada de Adão, a conserva sob perdão e crescente mortificação pelo poder do Evangelho – isto, ainda com mais da abundante Graça de Deus, faz do Cristão um veículo da redenção da Criação e da Glória de Deus na terra, atendendo ao Senhor conforme os dons que Ele mesmo despensa aos homens, servindo ao próximo na vocação específica a que o Senhor direcionar. Assim, os Cristãos tem o dever de viverem na mais próxima comunhão uns com os outros, exercendo seus específicos ministérios e dons, edificando-se e ajudando-se em tudo, tecendo entre eles toda sorte de bons concertos, consolando-se mutuamente, falando e ensinando uns aos outros pela Palavra de Deus. O Senhor, por amor ao Seu próprio Nome, manifesta a unidade de fé e a comunidade de vida nos Cristãos, como Família de Deus, operando esta graça como parte da santificação do homem regenerado e para propagação do Evangelho em todo o mundo [Gênesis 1:26,27; Efésios 2:4,5; Efésios 4:24; Efésios 5:8; Colossenses 3:10; Romanos 3:10; Romanos 5:12-14; Romanos 8:6,7; Salmo 94:11; João 1:15; João 8:34; 1 Coríntios 2:14; 2 Coríntios 3:5; Jó 14:4; Salmo 51:5; 2 Coríntios 6:14; 1 Tessalonicenses 4:18; 1 Tessalonicenses 5:11; 1 Coríntios 14:3; Atos 2:42; 1 Coríntios 1:9; Filipenses 2:1].
9.    Os Cristãos, eleitos e chamados em Cristo Jesus, enfrentam um aguerrida batalha e uma longa peregrinação por causa de seu Amado. Uma batalha contra forças espirituais, contra o pecado e contra o mundo regido e moldado pelas mentes decaídas dos pecadores inconversos; uma peregrinação neste mundo tenebroso, no qual não temos habitação permanente estrangeiros que somos, mundo que nos oferece duras provas e percalços e as mais diversas tentações à evitar, até chegar ao dia de nosso encontro com Cristo Jesus. As armas da batalha e os auxílios na peregrinação são os mesmos: a certeza da salvação e, nela, plena confiança na Palavra de Deus; o descanso na Justiça de Cristo que nos é imputada pela fé somente; os frutos de santidade, ainda que de uma fé frágil, que recebemos de Deus e pelos quais somos dEle ainda mais devedores; a reconciliação com Deus em Cristo, pela qual entramos com ousadia diante do trono da graça e intercedemos uns pelos outros em oração; o vivo e operoso conhecimento de Deus, que molda nossa mente e coração à semelhança de Cristo, conhecimento este segundo as doutrinas da Fé Cristã, reveladas na Escritura e sustentadas, em toda a História, pela fiel Igreja; o vivificante refrigério das promessas de Deus, as quais Ele nos deu na Escritura para que clamássemos por elas e esperássemos seu cumprimento; e, por fim, a Palavra de Deus em suas manifestações diversas, tanto para meditação particular, quanto a destacadamente poderosa Palavra pregada, e ainda a Palavra que consola na comunhão e a Palavra ilustrada nos Sacramentos. Dotado destas poderosas armas, recorrendo a estes efetivos auxílios, o Cristão vencerá, em Cristo, as batalhas contra os poderes das trevas e perseverará ante os obstáculos do caminho, tanto aqueles poderes e obstáculos que estão no mundo – seja na alma dos ímpios ou nas dimensões espirituais – quanto aqueles que atuam em nosso própria alma, pela corrupta natureza humana. [Judas 3; 1 Coríntios 14:8; 1 Timóteo 1:18;  1 Timóteo 6:12; Efésios 6:10-12; Efésios 6:13-18; 1 Pedro 2:11; Colossenses 3:10-12; Romanos 4:6-11; Filipenses 3:9; 1 Tessalonicenses 5:8; Mateus 4:1-11; Lucas 4:1-13]

Doutrina III.    O Deus dos Pactos
1.    O Senhor Deus é Altíssimo e Majestoso, habitando em Glória nas alturas, excelso em poder e santidade, Uno e imutável – Sua mente, Seus planos  todo o Seu ser é incompreensível para a sabedoria do homem; contudo, condescendentemente, aprouve ao Senhor Eterno se fazer cognoscível através da Aliança ou Pacto que Deus Pai firmou, antes da aurora do tempo, com Seu Filho Cristo Jesus e, ambos, com o Seu Santo Espírito. Neste Pacto, segundo a suprema sabedoria do Conselho da Triunidade Divina, Deus contemplou a humanidade, desde Adão até o último homem que nascerá sobre a Terra, e, por Graça, como Soberana fonte de todo o bem, resolveu trazer o conhecimento da Divindade ao mundo. Ainda nesta maravilhosa Aliança, Deus Pai ofereceu gratuitamente Seu Filho ao mundo, para que não perecêssemos todos pelo pecado de Adão e o Filho Amado ofereceu-se a si mesmo para deixar as Glórias do céu e sofrer castigo e miserável morte por estes pecadores; permanentemente, o Pai exaltou a Cristo como Palavra que sustenta a Criação e declara a Glória de Deus em tudo, e como Palavra na Sagrada Escritura que comunica, pelo Santo Espírito, vida, fé e salvação no Amado Messias Jesus; nisto o Santo Espírito igualmente acordou aplicar ao coração dos eleitos o Evangelho, regenerando-os e santificando-os e exaltando à Cristo em seus corações e mentes. Por isso, é correto considerar que toda a relação entre Deus e os homens é mediada em Cristo Jesus, pela Graça de Deus, e é baseada nesta Eterna Aliança – Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi, todos estiveram sob Pacto com Deus, e todos estes Pactos estiveram sob a Eterna Aliança em Cristo, e mesmo o Velho Testamento e o Novo Testamento são contínuos Pactos sob esta mesma Eterna Aliança, sendo o Novo Testamento o ápice da revelação da Eternidade da Aliança da Graça antes que esta mesma venha a se mostrar em Glória na Cidade Celestial no último dia [Lucas 17:10; Jó 35:7,8; João 14:13, 16:14; Gênesis 2:17; Gálatas 3:10; Romanos 3:20,21; Romanos 9:3; Marcos 16:15; Ezequiel 36:26,27; Hebreus 1:1; Hebreus 11:6-13; Hebreus 13:20; Apocalipse 17:8].
2.    Nosso Senhor se apraz, por suma benevolência, em chegar-se até nós e despertar-nos, pelo Espírito e pela Palavra, para estabelecer conosco Seus Pactos, segundo Seus propósitos. Tais Pactos são firmados na Eterna Aliança da Graça; neles temos com o Senhor um relacionamento voluntário e uma expressão de nossa confiança, com deveres, recompensas à obediência e castigos à violação dos termos do acordo. Por isso, para que seja imutável e inviolável, a Eterna Aliança da Graça, na qual temos Salvação pelo sangue de Jesus, é um Pacto firmado entre as pessoas da Trindade Excelsa, no qual somos graciosamente incluídos – não como parte contratante e sim como objeto do celestial acordo.  Entretanto, o Senhor também firma com aqueles que são feitos seus filhos, pela Fé,  um Pacto de Gratidão, no qual são chamados a obedecer em amor a Seu Senhor, por já terem sido Salvos por Sua Graça, destinados ao amor de Cristo pela Eterna Eleição e manifestos neste amor por Seu chamado – obediência que não tem em vista recompensa alguma exceto a maior de todas, Cristo Jesus, o qual já foi feito nosso e nós dEle. Mas não só a Aliança da Graça para Salvação e nosso Pacto de Gratidão são firmados por Deus, mas ainda inúmeros outros pactos pessoais e particulares são evocados por Ele, tanto na História da Redenção, quanto na peculiar história de cada servo Seu. As características destes pactos pessoais, os quais ainda somos chamados a selar, que demonstram serem veras operações da Graça de Deus por Seu Espírito (as quais temos dever de distinguir das simples ilusões da mente carnal), são: seu objetivo – a exaltação e glória de Cristo Jesus; seu sustentáculo – a Graça de Deus revelada na Cruz de Cristo; suas estipulações, recompensas e castigos – são tais que não podem contradizer, enfraquecer, pôr em dúvida ou mesmo dificultar o cumprimento evangélico de sequer o menor mandamento da Escritura; e seus frutos – são tais que proporcionam o crescimento do Cristão na fé, esperança e amor, incluindo a maior humilhação do Cristão pelo reconhecimento de sua pessoal inutilidade e da perversão natural de seu ser, e a maior gratidão e dedicação pelo reconhecimento de que todos os Pactos descansam sobre os méritos e sobre a obra expiatória de Cristo Jesus [Gênesis 1:26:28; 2:15-19; 6:18; 9:9-11; 12:1-3; 15:12-20; 16:7-14; Jeremias 31:35-36; Oséias 6:7; 2 Samuel 5:1-3; Números 25:12; Salmo 50:5; Ezequiel 16:60; 1 João 3:11-24,4:1-10].
3.    Portanto, é lícito, justo e proveitoso que tenhamos tal vivo relacionamento e comunicação com Deus, a qual a Palavra nos faz conhecer na forma da economia Divina vigente nos Pactos, os quais descansam na Aliança da Graça em Cristo Jesus. Como o verdadeiro amor ao próximo somente provém de um coração regenerado, é lícito, justo e proveitoso que igualmente firmemos alianças entre nós edificadas sobre o Pacto Divino e reverentemente tomadas diante do Senhor. Solenes alianças de amizade, matrimônio, trabalho, caridade, beneficência, educação ou culto devem ser respeitadas e cultivadas segundo tais princípios, e tidas na mais alta estima e consideração dos crentes, os quais devem anelar e zelar por elas. Assim, todo pecador que, arrependido, se achega as nossas congregações, confessará diante do Senhor um Pacto de Fé conosco, tomando sobre si a responsabilidade de lutar pela Sã Doutrina e pela Unidade da Igreja conforme a conhecemos; e toda nova congregação que se achegar as nossas  outras congregações confessará uma Aliança com as Igrejas Kalleyanas, comprometendo-se diante do Senhor a submeter-se ao comum acordo regido pelos nossos comuns Símbolos de Fé, Plataforma de Governo e Estatuto Civil, batalhando pela Fé Cristã Histórica e voluntariamente submetendo-se ao comum serviço desta Aliança. Igualmente, todo membro da Igreja Kalleyana diligentemente se esforçará para haja, consigo e com sua casa, a mais alta estima pelas santas Alianças e Pactos [Êxodo 23:32; Números 25:12; Josué 24:25; 1 Samuel 18:3; 2 Reis 11:17; 2 Reis 23:3; ] destarte, cremos que todo Cristão deve zelar para que:

i.    Verdadeiramente seja o matrimônio um Pacto, tomado licitamente segundo as leis e convenções civis e tomado licitamente, entre Cristãos fiéis, diante de Deus Pai, mediado em Cristo Jesus  –  para que o marido ame sua esposa como Cristo amou a Igreja, e a esposa seja submissa a seu próprio marido como ao Senhor, ambos respeitando, desejando e vivendo conforme a Graça de Cristo Jesus em nós;
ii.    Os pais Cristãos tenham seus filhos com verdadeiros filhos da Aliança – santificados em Cristo Jesus, separados para uso do Senhor, segundo uma firme expectativa de Salvação entregue a nós pelas promessas da Palavra, educando-os segundo este desígnio, inculcando neles os mandamentos e a Palavra da Verdade, não permitindo que os vícios da sociedade decaída sejam tomados como coisa comum e inofensiva, mas sendo desde a mais tenra idade treinados para o serviço de Deus.
iii.    Neste bom entendimento da Escritura cada família seja a primeira e mais constante congregação que o Cristão respeite e aonde preste serviço ao Senhor, e que esta Aliança de cultuar ao Senhor em família estenda-se também aos vizinhos Cristãos e aos amigos próximos, formando conventículos – pequenas comunidades a Aliança da Graça – que devem viver o Evangelho comum e eficazmente em todas as suas relações e trazer consigo a Palavra de Deus às mais cotidianas conversas e ações, zelando pela paz e ininterruptamente orando por todos os Santos, tanto com jejum quanto com fartas ações de graças, segundo os momentos convenientes e toda a reverência ao Senhor;
iv.    Os vínculos de trabalho e demais relações de serviço às autoridades sejam buscados e reformados em Aliança com o Senhor – tendo sua ocupação lícita e pura, como convém a um Cristão, assim como tendo profundo respeito às autoridades e destacável zelo para que o Espírito de Deus guie as mãos e as mentes dos magistrados civis, para que haja paz e benefícios mútuos na relação entre os homens e para que o Evangelho encontre portas abertas e o Reino de Deus seja conosco.
v.    Em tudo o Cristão se santifique, firmando com o Senhor uma pessoal relação de gratidão, pela qual fará conhecer á nosso Sumo Sacerdote todas as tentações pelas quais tem passado, pedindo constante perdão e confiando nEle, que dá gratuitamente Seu Espírito e Sabedoria a todos os que pedem, para que seja santificado com o mesmo poder e eficácia com que foi lavado de sua culpa e revestido de justiça pela fé na morte e ressurreição de nosso Salvador.
vi.    Um dos sinais da Aliança, o Domingo, que é o Santo Sábado Cristão e o dia da nova Criação na ressurreição de nosso Senhor, seja guardado com respeito e temor. Para que haja descanso dos trabalhos temporais, e haja justiça sobre a terra, lembrando-nos a não nos exercitarmos na ganância e não escravizarmos a nós mesmos ou a nossos irmãos. Antes, é um dia para apresentarmo-nos ao Senhor na mais completa dedicação, ouvindo a Palavra, dedicando-nos a oração, meditando nas obras do Senhor, conversando com os irmãos sobre o celeste porvir e as vitórias da Palavra em nós, compartilhando também sobre nossas necessidades e fraquezas espirituais para recebermos auxílio em oração e admoestação, oportunamente servindo e ensinando especialmente aos da própria casa, exercendo obras de misericórdia para com os desvalidos e esforçando-nos em tudo para evitar a ociosidade e os prazeres egoístas, servindo antes ao próximo por amor Áquele que é nosso final descanso.
vii.    As congregações respeitem o Pacto firmado entre elas, tendo os ministros da Palavra em grande estima, orando por eles em todo o tempo para que o Senhor lhes dê entendimento e guie suas decisões, temendo e submetendo-se, com a prova da Palavra e do Espírito, aquilo que ensinarem e solicitarem; igualmente aos ministros cabe que se submetam a congregação, prestando-lhes o verdadeiro serviço de misericórdia e sacrifício que cabe a um pastor – inda mais àquele que pastoreia o rebanho de Seu Senhor; e que haja respeito entre as diferentes congregações, sabendo discernir entre o que é essencial na Fé Cristã Histórica e está definido em nossos Símbolos de Fé e o que é secundário ou indiferente, para que não haja rixas ou disputas, nem dissensões ou cismas, mas que todas as congregações submetam-se umas as outras, segundo nosso Pacto e a suprema Aliança da Graça, como Cristo, mesmo sendo Deus igual ao Pai, submeteu-se à Vontade dEle para obedecê-lO em todas as coisas até a humilhação da morte e glorifica-lO, assim como o Espírito, sendo Deus igual a Cristo e ao Pai, procede de ambos e não fala de Si mesmo, mas glorifica ao Messias Redentor. Ainda, segundo o mesmo Pacto, que cada congregação se esforce pela Reforma segundo a Palavra, de modo que em nada nos desviemos da Unidade da Fé e da vida Cristã conforme a temos recebido do Senhor, por intermédio dos nossos pais na fé, os puritanos que Robert Kalley trouxe a nós, sendo ele mesmo um destes; indo ainda além disto, e batalhando pelo progresso da Reforma para além de nossas fileiras, de modo que mais e mais congregações sejam visivelmente unidas na Sã Doutrina e no amor ao Evangelho Eterno;
viii.    O culto ao Senhor seja Santo e Puro, simples como convém, desprovido de pompas e cerimônias e de invencionices humanas, mas guardando os preceitos, testemunhos e sacramentos entregues a nós pela Palavra, com os quais estamos comprometidos com o Senhor por uma Aliança de Gratidão e com nossos irmãos pelo Pacto firmado entre nós, sob o testemunho do Senhor; ainda, o culto, os preceitos, testemunhos e sacramentos devem ser guardados intocados, sem nada lhes subtrair e sem nada lhes acrescentar, atendo-nos somente ao que está na Escritura, considerando mesmo que aquilo que a Escritura não ordena é, por isso, proibido e abominável ao Senhor.
ix.    Todos estes santos Pactos e Alianças, assim como qualquer outro que seja conforme a Palavra e os bons propósitos delineados no caput deste artigo, devem ser relembrados e renovados com arrependimento sincero diante do Senhor se, pela nossa pecaminosidade, ofendermos os termos e violarmos os deveres que houvermos assumido sob o testemunho do Altíssimo Deus dos Pactos; pela Fé que Deus Pai nos dá por Seu Santo Espírito, o sangue de Cristo nos lava de todo pecado, pois, se realmente somos filhos de Deus, permanecemos nEle e não no pecado, tendo Cristo Jesus por mediador da mais Santa Aliança, o Eterno Pacto da Graça, no qual nossa obediência e amor são santificados e aperfeiçoados em tudo.

Doutrina IV.     A Suprema Autoridade das Escrituras
1.    As Sagradas Escrituras são o vero alimento da alma Cristã, a memória viva e a viva presença de Cristo em todos os séculos, a Palavra de Deus. Ela deve ser amada, temida, completamente conhecida, constantemente anunciada e sinceramente praticada por todos servos do Altíssimo. Atados a este suave e doce jugo Evangélico, encontramos de Deus direção  e regra para toda e qualquer condição possível nesta vida, de modo que em nenhum outro lugar necessitamos ou devemos buscar a perfeita instrução do Senhor.
2.    Escrita por homens Santos inspirados pelo Espírito da Verdade, o qual jamais pode mentir ou errar, a Escritura Sagrada provém de Deus mesmo – portanto a vida Cristã (em toda moral, conduta e conhecimento), e o fundamento da Igreja (em toda doutrina e governo), estão alicerçados na Escritura, a qual é a suprema regra sobre nós, e pela qual todas as demais regras, práticas, sermões e livros, e mesmo tudo o mais que se vive ou aprende, deve ser julgado segundo o padrão e vontade Divinos.
3.    A Escritura deve ser lida diariamente por todos os Cristãos, pois, pela luz do Espírito Santo, segundo a Graça de nosso Senhor, ela se faz compreensível em todos os assuntos de salvação e piedade, para todos os homens. Recomenda-se, contudo, que se tenha em bom apreço e em grande habilidade, as ciências de interpretação da Escritura – evitando torcer os textos e criar alegorias ou doutrinas pela vaidade humana, mas entendendo cada versículo segundo seu único sentido, da forma mais simples e direta que o texto foi entendido na ocasião em que fora escrito, conforme as peculiaridades da linguagem e cultura tanto do autor quanto dos leitores originais, guardando-se ainda boa observância da coerência do texto, de seu escopo e contexto, levando em boa conta a verdade manifesta na Igreja da História e, sobretudo, tomando a Escritura por intérprete da própria Escritura, lançando a luz dos textos mais claros sobre aqueles de mais difícil entendimento
A Escritura é o centro temporal do culto ao Senhor, com a Obra de Cristo é o centro Eterno. Assim, o culto tem como objetivo a comunicação da Graça de Deus aos homens pela Palavra e, através disto, a maior glória do Altíssimo, a edificação da Igreja, a direção do povo à Santidade e à diligente dedicação ao Reino de Deus. Portanto, o culto ao Senhor, centrado na Escritura, é puro e simples, fazendo saber somente a Cristo e este Crucificado, e fazendo saber isto em todas as histórias e poesias bíblicas, assim como gravando profundamente esta verdade na alma dos homens  através de cada Santa doutrina e aplicação ensinada. No culto os homens falam uns aos outros pela Escritura, oram conforme a instrução da Escritura e cantam unidos palavras da Escritura.

Responses

  1. GRAÇA E´PAZ, AMO AS ESCRITURAS SAGRADA, LOUVAMOS A DEUS PELA IGREJA CONSTITUÍDA POR ELE. A IGREJA REFORMADA NOS TRAZ SUA PALAVRA GENUÍNA SEM BARGANHAS COM O EVANGELHO DE CRISTO O NOSSO SENHOR E SALVADOR DE ETERNIDADE A ETERNIDADE.


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